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Excerpt for HOPE As Cores da Verdade by , available in its entirety at Smashwords


M. V. NERY









HOPE

AS CORES DA VERDADE


















ISBN: 978-85-5697-350-4

Todos os direitos reservados ao autor

Esta obra não pode ser copiada ou vendida.

















Quando a sociedade voltar a ser um dia governada por religiosos, viveremos novamente a “Idade das Trevas”.

M. V. Nery











DEDICATÓRIA







Em memória de Heber M.


AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus e aos amigos espirituais que certamente me deram criatividade e auxílio para escrever esta trilogia. Agradeço imensamente ao meu namorado Cássio Ayres por todo amor, por me incentivar, impulsionar-me e me fazer acreditar em mim mais do que eu mesmo. Agradeço também a minha família que tem sempre estado do meu lado e dando forças para que eu prossiga com meus sonhos e objetivos. Agradeço também aos meus sogros por me apoiarem sempre. Gostaria de agradecer especialmente à minha amiga Suelyn Magalhães por se dispor a ler, revisar, corrigir e me dar alguns toques sobre o que eu deveria ou não manter na história. Agradeço também ao meu amigo Diego por ler, revisar e fazer suas críticas. À agência INDIE6, especialmente ao Lucas Odervank pelo excelente trabalho da capa e diagramação e por me auxiliar no processo de edição e muitas outras dicas essências para que tudo ficasse exatamente como eu havia imaginado. Agradeço à minha revisora Bárbara Parente pelo trabalho de corrigir meu livro e me auxiliar com os procedimentos para publicação. Agradeço aos meus amigos do projeto voluntário Alimento Para Todos com os quais tenho tido o enorme prazer de trabalhar e aprender que o melhor meio de se obter ajuda é ajudando, e também ao Centro Espírita Allan Kardec (CEAK) por me ensinar a verdade sobre Deus, a vida espiritual e sobre mim mesmo. Por fim agradeço a todos meus amigos da Crossfit Lagoa, aos amigos da vida, alunos e parentes que não estavam cientes deste meu novo trabalho, mas que sempre me incentivaram e acreditaram em mim.

Muito obrigado a todos! Amo muito vocês!




PRÓLOGO


Naquele momento senti medo dos estrondos incessantes na porta enquanto meus pais me conduziam visivelmente tensos em direção ao seu quarto. Meu pai Tedd abriu uma das portas do guarda-roupa, no qual havia uma sessão de gavetas, apertou algum botão ao fundo e um tipo de mecanismo simples abriu uma porta revelando um conjunto de gavetas falsas. Meu outro pai, Hans, olhou no fundo dos meus olhos, apertando meus ombros com força.

  • Sam, chegou o momento de você fazer o que o treinamos — disse, com a voz tensa.

  • O que está acontecendo? — perguntei, sem entender.

  • Não temos tempo para lhe explicar tudo agora. Só pedimos que faça o que o ensinamos.

  • Papai, quem são eles? — Eu estava em pânico.

  • São do governo, Sam! — Arregalei os olhos. Senti o terror correr por minhas veias.

Outro estrondo forte de metal ressoou da porta da sala. Os “homens do governo” em breve conseguiriam entrar.

Meu pai Tedd observava a porta da sala pela porta do quarto, visivelmente nervoso.

  • Rápido, Hans! Não temos mais tempo. — Sua voz era de puro terror.

Papai Hans me conduziu para bem próximo do guarda-roupa e ambos vieram em minha direção.

  • Nós amamos você — disseram.

  • Papais, eu estou com medo.

  • Você sabia que este momento poderia chegar, Sam — disse meu pai Hans.

  • Filho, você precisa ser forte agora. Não deixe que eles o encontrem — pediu meu pai Tedd.

  • Quando você perceber que eles já se foram, então você pode sair. É só apertar este botão, tudo bem? — Olhei para o botão no canto superior do cubículo e balancei a cabeça, confuso.

Eu não queria fazer aquilo, queria ficar com eles. Mas meus pais um dia me disseram que eu tinha que estar preparado para o dia em que algo ruim acontecesse. E inevitavelmente ele havia chegado.

  • Seja forte, filho. Qual a palavra mágica? — questionou-me papai Hans.

  • “MYDAH” — falei, com relutância.

  • Exatamente. Nunca se esqueça disso. — Ele se virou para meu outro pai. — Deixe o computador com as imagens para que eles vejam.

  • Sim.

Eu estava em pânico, tentando entender o que estava acontecendo. Via nos olhos dos meus pais o pavor, e naquele momento senti que não mais os veria.

Enquanto meu pai Tedd abria o laptop, papai Hans me puxou, abraçando-me e me dando vários beijos na cabeça e no rosto.

  • Amamos você, filho — disse.

Meu pai Tedd deixou algumas fotos abertas na tela do laptop sobre a cama, mas não consegui enxergá-las com exatidão. Ele correu até mim e me abraçou, dizendo que me amava. O estrondo da porta sendo arrombada soou alto na sala. Meu pai Hans fechou a porta do cubículo onde eu estava, e os dois saíram correndo em direção à sala. Apertei-me dentro daquele lugar, tentando encontrar uma posição mais confortável.

Ouvi vozes gritando imperativamente:

  • Saiam daqui! — Eram meus pais.

Certamente eles começaram uma luta quando ouvi o barulho de vidro estilhaçando. Meu pai Hans era um lutador e foi com ele com quem aprendi a lutar desde pequeno. Eu sabia que ele iria conseguir interceptá-los. Mas de repente tudo ficou silencioso após uma sequência de estalidos abafados. Eram tiros. Encolhi-me ainda mais no fundo daquele espaço escuro, tremendo de medo.

  • Vasculhem todos os cantos da casa! Encontrem o garoto. — Era a voz grave de um homem.

Fiquei de olho por uma pequena fresta quando dois homens vestidos de preto e armados entraram no quarto abruptamente. Consegui ver com nitidez seus rostos. Um parecia estar na faixa dos trinta e poucos anos, cabelos negros curtos e usava barba. Tinha feição de homem mau. O outro parecia um pouco mais velho, não usava barba e também era moreno de olhos castanhos, com os cabelos cortados bem rente ao redor da cabeça. Senti medo de ambos. Sabia que estavam ali para me matar.

Eles começaram a vasculhar todos os cantos do quarto. Não consegui compreender o que um deles disse ao pegar o laptop e ver as fotos que meus pais deixaram para que fossem vistas. O moreno de barba arremessou o computador no chão com força e o estilhaçou.

  • Vou procurar no outro quarto — disse. — Procure no guarda-roupa.

O homem moreno sem barba veio em direção a mim. Congelei naquele instante. Segurei minha respiração para não fazer qualquer tipo de ruído. Ele arrancou as roupas dos meus pais do armário sem qualquer cuidado e espalhou-as sobre a cama e pelo chão. Revistou todo o guarda-roupa e puxou uma das gavetas. Meu sangue se esvaiu. Ele logo se deu conta de que estava emperrada e desceu os olhos até os vãos entre elas. Meu coração veio à boca. Ele iria me ver. Olhou por entre os vãos e tive a certeza de que me viu. O outro homem entrou de repente no quarto e seu companheiro se empertigou.

  • Encontrou alguma coisa no guarda-roupa? — perguntou, vindo em direção ao guarda-roupa.

  • Não — disse o homem, sem pestanejar. — Não há nada no guarda-roupa.

O homem de barba interrompeu os passos e balançou a cabeça.

Outros dois homens apareceram no quarto.

  • Ninguém, senhor — disseram.

  • Revistaram todos os cantos? — perguntou o homem de barba.

  • Sim, senhor.

  • Merda! — esbravejou, irado. — Eles devem ter levado o garoto para outro lugar.

  • E agora, senhor? — perguntou um dos homens.

  • Alguma hora o encontraremos. Não podemos deixá-lo vivo. Vamos embora.

O homem que procurou por mim no guarda-roupa esperou que todos os demais saíssem e então fez um gesto na direção das gavetas, como se dissesse para eu esperar e só então se foi junto dos demais. Naquele momento, tive certeza de que não só ele me viu como também quis me ajudar. O que eu não entendia era por que ele fez isso.

Fiquei dentro daquele cubículo por tempo suficiente para que meus pensamentos começassem a flutuar e relembrar muita coisa que vivi com meus pais e o que me ensinaram. Senti vontade de chorar, porque eu sabia que aquele silêncio significava nada além da morte.

Meus pais sempre me alertaram do quão o mundo se tornara duro para pessoas como nós. Por muito tempo, eles me deixaram à parte dos maiores perigos que a sociedade nos representava, mas quando eu os revelei ser também homossexual, fui arremessado para dentro de um universo que eu jamais imaginara que existia. Eu era jovem, mas consegui entender perfeitamente bem a gravidade da situação à medida que meus pais me introduziam os acontecimentos daqueles anos.

A partir do ano 2040, o planeta havia chegado ao exorbitante número de onze bilhões de habitantes. A vida prosperava em abundância quando doenças como a AIDS haviam sido erradicadas após uma forte pressão da população ao saber que a indústria farmacêutica descobrira uma cura e foi forçada a liberar para todo o mundo.

O índice de mortalidade caiu drasticamente e de natalidade subiu na mesma proporção, elevando muito rápido o número de habitantes no planeta, fazendo com que outros problemas começassem a surgir.

Embora a tecnologia tenha mantido seu progresso, todavia não foi capaz de suprir às necessidades de um planeta superpopuloso. Desta maneira, com o propósito de conter a natalidade, casais foram obrigadas a ter somente um filho quando os quisessem. Para terem mais de um, somente fazendo parte da alta hierarquia do governo ou adotando. A esterilização dos pais era obrigatória após o nascimento do primogênito para que não houvesse a menor chance de terem um segundo.

Devido às circunstâncias, o governo e as igrejas foram forçados a legalizar e aceitar as famílias homoafetivas. As organizações LGBT finalmente conquistaram total liberdade de expressão ao menos da parte dos governos, já que as igrejas, como sempre conservadoras e relutantes, foram apenas forçadas a aceitar a situação devido à quantidade de crianças que necessitava de adoção.

Governantes do mundo todo se uniram para decidir como freariam o crescimento populacional que ano após ano fracassava. Não havia suprimento para todos, principalmente para os países mais pobres, e o mundo estava à beira do colapso.

Naquela época, George Harrison era o presidente dos Estados Unidos. Um ótimo presidente, no entanto, muito pacífico para tempos sombrios como aqueles em que o mundo enfrentava o caos. George Harrison defendia a vida. Era um presidente carismático, amado por muitos e odiado por outros. Os mais tradicionais o odiavam. Harrison era um presidente que sempre tentava mostrar o lado bom da vida, e guerra era a última coisa que estava em seus planos. Os Estados Unidos sempre foram um país que esteve à frente no quesito armistício, mas com George Harrison isso deixou de ser, e por isso muitos cobravam uma atitude mais enérgica, que nunca viria a acontecer enquanto ele estivesse no poder.

Ninguém nunca soube com exatidão, mas meus pais me disseram que o vice-presidente de Harrison, Isaac Harper, armou um golpe de estado para derrubá-lo do poder. George Harrison sofreu um impeachment, e para quem o adorava não havia dúvidas de que ele foi vítima de um golpe. No entanto, antes que conseguisse provar qualquer coisa contra seu vice, George sofreu um acidente de carro que o levou à morte. Muitos tinham certeza de que o responsável pela tragédia fora Isaac Harper, mas não havia prova alguma para incriminá-lo e o mundo estava voltado para outro fato muito mais importante: uma Terceira Guerra Mundial que estava prestes a estourar, e nem mesmo a Organização das Nações Unidas conseguiria impedir o trágico evento. Estivemos prestes a entrar em guerra outra vez, mas daquela vez por suprimentos e recursos naturais.

Quando todos os países se armavam para se defenderem, algo insólito passou a acontecer. Misteriosamente milhares de pessoas pelos quatro cantos do mundo começaram a ter sintomas de uma gripe muito forte e a morrer no terceiro dia do estágio. Quando o surto se tornou grande demais, cientistas descobriram que um vírus, uma mutação do H1N1, havia se tornado extremamente potente, e vários países decretaram estado de emergência, em sua maioria os mais pobres, onde o vírus se alastrava com uma velocidade inimaginável. Nem mesmo as vacinas contra a gripe foram capazes de conter o avanço do vírus mais mortal que o planeta um dia chegara a ter.

O vírus se propagava pelo ar com uma facilidade imensa e parecia que nada era capaz de interceptá-lo.

Com a situação a um nível apocalíptico, religiosos voltaram a erguer suas vozes e acreditavam, insistiam que aquele era o próprio apocalipse acontecendo com a quantidade de mortos diariamente. Uma onda de desespero se instalou na humanidade. Dor. Medo. Terror. Um verdadeiro pandemônio. O ser humano estava vendo a sua espécie ser derrotada por um ser microscópico.

Um ano após as primeiras vítimas pelo vírus começarem a aparecer, aproximadamente metade da população mundial já havia sido dizimada. Não era uma contagem exata e não havia como ser. Este foi o maior número de mortos por um vírus em tão pouco tempo. A maioria bebês, crianças e idosos acima dos cinquenta anos.

O flagelo que o vírus causou fez com que todas as nações se unissem. A medicina havia progredido a um nível exorbitante, mas nenhum cientista foi capaz de descobrir uma vacina eficaz para o vírus logo após seu surgimento. E neste ínterim ele seguiu fazendo mais estragos.

Quando o mundo já não mais acreditava numa cura, Isaac Harper finalmente anunciou em rede mundial que o cientista americano Ryan O’Connor havia conseguido desenvolver uma vacina que conteve o vírus com sucesso, obtida por meio de um indivíduo que em todo o globo era, de alguma forma misteriosa, imune ao vírus. Com seu sangue, o cientista desenvolveu uma vacina com cem por cento de eficácia. Os países se uniram na fabricação em escala mundial, e os Estados Unidos tomaram a frente com o aval de Isaac Harper.

Todos no planeta foram vacinados, sem exceção. E por fim o vírus foi erradicado com total sucesso.

Devido ao grandioso incentivo e incessante trabalho para o bem da população de todo o globo, Isaac Harper deixou de ser o golpista imundo para ser o presidente que mudou a história da humanidade. Ganhou tamanha popularidade que ninguém mais queria que ele saísse do governo. E isso o favoreceu para que usasse das suas armas mais maquiavélicas, como a alteração da lei do país para que não houvesse um número limitado de reeleições, e com isso ele ainda se mantém no poder por vários anos e de lá só sairá morto, já que se julga o melhor presidente e o único capaz de manter o país em ordem. E seus eleitores acreditam piamente nisso.

Um cristão ferrenho que insiste em dizer que se o mundo conseguiu obter a cura para o vírus da gripe, o mérito não foi do homem, mas sim de Deus, que os permitiu encontrá-la. Com discursos embasados em passagens bíblicas e em fundamentalismo religioso, Harper reergueu as imêmores igrejas. As diferenças que afastavam as religiões, agora as aproximavam. Todas compartilhavam do mesmo pensamento do político de que Deus havia mandado o vírus para trazer de volta o sentimento de fé ao ser humano, que colocara a tecnologia acima de Deus. Até mesmo os mais céticos, diante o cenário flagelante causado por um único tipo de vírus, passaram a ter crenças em algo divino e apocalíptico.

As igrejas, que durante anos lutaram contra a racionalidade humana, voltaram a ser mais frequentadas do que nunca antes foram. Os líderes religiosos, outrora esquecidos, agora tinham o poder da palavra de Deus em suas mãos, e aqueles que discordavam das Leis Divinas estavam contra Deus e não eram vistos com bons olhos. Os líderes religiosos pregavam que aqueles que sobreviveram ao flagelo tinham que levantar as mãos para o céu e louvar a Deus pela graça de seguirem vivos, quando muitos pereceram.

Os governos de todos os países, principalmente dos desenvolvidos, ficaram preocupados com o futuro do planeta já que havia pouquíssimas crianças e a grande maioria dos casais heterossexuais fora esterilizada. Inúmeras inseminações artificiais eram feitas apoiadas pelo próprio governo e pela igreja, embora este fosse um método anticristão. Os bancos de esperma e óvulos logo se esgotaram, mas ainda assim não foram suficientes, já que muitas das tentativas fracassavam, e cada casal só poderia dispor de apenas uma.

Houve então um efeito reverso. Pouca população para um planeta cercado de recursos e precisando ser reerguido. A tentativa do governo anos atrás de controlar a taxa de natalidade foi um erro irreversível e agora eles colhiam os frutos amargos dessa ação.

Homossexuais escaparam da esterilização, e os governos anteriores, principalmente nos Estados Unidos, na era de George Harrison, amado pelos homossexuais, pouco se importavam com o estilo de vida daqueles, tampouco impunham a eles a obrigação de procriarem; as pessoas eram livres para viverem como quisessem; até Isaac Harper tomar o poder.

Embora muitas igrejas nos Estados Unidos fossem diferentes, havia um fator com o qual todas elas concordavam entre si e que os líderes religiosos faziam questão de salientar: homossexualidade era contra as leis divinas, pois estava na Bíblia que era uma abominação aos olhos de Deus. Com isso o presidente Harper conseguiu vetar as leis que protegiam a classe LGBT ou concediam-lhe direitos conquistados após anos de luta. Para ele, era inadmissível que um planeta necessitando ser repovoado permitisse que relacionamento homoafetivo fosse algo natural.

Tempos de escuridão haviam voltado. Novamente a luta por direitos recomeçava, e as chances eram mínimas, já que Isaac Harper havia empesteado o governo com fundamentalistas religiosos que o idolatravam e seguiam suas ordens à risca.

O trunfo maior do governo foi quando o mesmo brilhante cientista Ryan O’Connor, mais uma vez mostrando seu talento, conseguiu uma suposta “cura gay”. Uma vacina capaz de fazer homossexuais perderem os sentimentos de atração, afeto, paixão e amor uns pelos outros. O caso foi mantido em total sigilo entre a mais alta hierarquia do governo e a população nem sequer sonhava com essa possível cura.

Após a confirmação de eficácia da vacina pelo cientista, o presidente Harper exigiu que todos no país fossem vacinados, alegando que a vacina era apenas uma proteção contra o vírus H1N1, para que este não voltasse a se manifestar.

Após algum tempo da vacinação, ninguém se deu conta do que estava acontecendo, mas os efeitos logo começaram a aparecer e apenas em homossexuais, que subitamente começaram a não ter mais interesse tanto sexualmente como emocionalmente por outra pessoa do mesmo sexo. O efeito da vacina funcionou como previsto. No entanto, o que Isaac Harper esperava também não aconteceu. Os homossexuais não passaram a sentir atração pelo oposto.

As poucas organizações LGBTs, que ainda tentavam de alguma forma lutar contra o governo Harper, exigiam uma explicação, mas como eram minoria, não tinham forças suficientes para pressionar um governo fundamentalista e ditatorial.

Fanáticos religiosos começaram a dizer que era Deus agindo sobre os homens para limpar o planeta de tudo que era antibíblico, tornando o caso ainda pior. Homossexuais começaram a depredar igrejas e os motins alastraram-se pelos quatro cantos do pais, forçando Harper a tomar medidas drásticas e violentas.

Após muita pressão, o presidente revelou a verdade. O último estopim para que se iniciasse outra guerra. Homossexuais de um lado e heterossexuais de outro, apoiados pelo governo, por conservadores e pelas igrejas.

O discurso do presidente Isaac Harper, em transmissão nacional, foi incisivo, mas visto e divulgado em todo o globo e eu nunca me esquecerei daquelas palavras embebidas de ódio:

  • ... por muito tempo nossa nação vem sendo corrompida por essa classe que empesteia e macula nossa sociedade hoje orgulhosamente cristã, formada em sua grande maioria por cidadãos de bem. Julgam nossos métodos sujos, mas se esquecem de que sujos são eles com suas práticas sodomitas, pecaminosas e repulsivas aos olhos de Deus. Nós queremos apenas preservar as verdadeiras famílias cristãs. Nosso planeta foi devastado por um vírus e agora temos que refazê-lo, e órgão excretor NÃO faz filho! Cometeram o grande erro de esterilizarem nossos irmãos de bem anos atrás para que pudéssemos conter a natalidade, mas Deus nos mostrou que não estamos no poder e nos fez pagar pelos nossos erros. Deus fez o homem e a mulher e disse: “frutificai e multiplicai-vos, enchei a Terra...”. Se quisermos que nossa nação seja verdadeiramente cristã, então não podemos mais tolerar essa classe demoníaca transitando por aí achando que nós temos a obrigação de suportá-los. Demos a eles a chance de se tornarem homens e mulheres decentes com a vacina, mas eles se rebelam contra nós e querem tirar-nos o direito da “Família Tradicional” que tanto tentamos manter imutável. Não podemos recuar diante desses ataques se quisermos continuar com nosso sonho de uma nação cristã unida. Passamos pelo momento mais difícil da história humana, e era um sinal de Deus para mostrar-nos o Seu poder e vermos o quanto estávamos pecando. Com a vacina, nossos filhos que estão nascendo e ainda nascerão a partir de agora serão homens e mulheres de bem, mas não podemos permitir que estes rebeldes destruam o que estamos lutando para manter. Nenhum ataque contra nossas igrejas, patrimônio público ou em redes sociais será tolerado. Rebeldes deverão ser presos imediatamente e o mesmo acontecerá com quem tentar impedir que isso seja feito. Não teremos clemência. Vamos construir a nação que Deus quis que construíssemos. Com os “Cidadãos de bem”. Deus uma vez destruiu Sodoma e Gomorra por este mesmo motivo. Agora é a nossa vez de limar essa classe imunda que denigre nossa nação! Por isso, vamos remover da sociedade quem está contra as leis de Deus e, agora, contra nossas leis. Obrigado.

O pronunciamento gerou ainda mais ódio nas redes sociais e nas ruas. E como ele mesmo dissera, não houve clemência. Milhares foram presos e centenas mortos.

O presidente Harper sabia que não podia esperar os rebeldes saírem às ruas e com isso ter uma razão para prendê-los. A grande maioria de homossexuais sem tiveram redes sociais, nas quais sempre se expuseram. Isso deu ao governo o poder de encontrá-los e aprisioná-los com a justificativa de descumprimento das novas leis governamentais e divinas.

A grande maioria das famílias não interferia. Elas estavam corrompidas pelas igrejas e cegas por um ideal utópico. Acreditavam piamente que as medidas extremas do governo eram para o bem de todos.

A mídia estava dominada pelo fascismo do governo e muitos artistas que sempre lutaram pela causa LGBT também terminaram na prisão, até que eles entenderam que ou se curvavam à Isaac Harper ou todos terminariam presos.

Dia após dia, uma quantidade considerável de homossexuais era levada a uma prisão criada especialmente para eles, isolada de toda a população, chamada HOPE, do inglês “Esperança”. Mas HOPE estava longe de ser isso, pois era na realidade as iniciais de Homosexuals Prison and Exclusion, que significa “Prisão e Exclusão de Homossexuais”.

Aqueles que conseguiam escapar da polícia e dos agentes do governo, viviam como párias da sociedade, escondidos em lugares precários, esperando a qualquer minuto serem denunciados e, por fim, presos ou mortos.

Héteros que protegiam homossexuais também eram presos. Por medo, ninguém mais oferecia abrigo a estes, nem mesmo as próprias famílias.

Houve uma tentativa desesperadora para conseguir ajuda das Nações Unidas para impedir as barbaridades que Isaac Harper estava fazendo no país. Mas após o apocalíptico evento com o vírus da gripe, muitos países abandonaram a organização e decidiram seguir suas leis por conta própria, nas quais nenhum outro país poderia interferir. Assim Harper tinha poder suficiente para fazer o que quisesse com os homossexuais nos Estados Unidos que nenhum outro país iria se imiscuir.

Era uma questão de tempo até que a grande maioria de homossexuais fosse toda aprisionada ou executada nos Estados Unidos. Todos que tentavam sair do país, se se tornasse suspeito, passava por um interrogatório e um teste com um detector de mentira. Se o aparelho acusasse que o indivíduo era homossexual, este era levado direto para HOPE sem poder recorrer a qualquer ajuda judicial ou extrajudicial. Desta forma, raros homossexuais se atreviam a sair do país.

Os homossexuais que sempre se mantiveram dentro do “armário” e os que conseguiram voltar para dentro dele, mesmo impossibilitados de ter qualquer tipo de relação, viram, após algum tempo de resistência, uma luz no fim do túnel. Eles esperavam que nas urnas o candidato Noah Wright assumisse o poder. Noah era um político que defendia a ideia de que o amor não tinha padrões e este era exatamente o tipo de amor que está na Bíblia. Ele era um verdadeiro exegeta; tinha completo conhecimento da Bíblia; e insistia que Deus amava a todos sem distinção, e que o amor que Jesus pregou por todo o evangelho não excluía a condição sexual do indivíduo. Eram os homens que estavam colocando as leis mosaicas acimas das do Evangelho de Jesus, e que mesmo assim diziam ser cristãos. Diferente de Isaac Harper, Noah era carismático e acabou conquistando muitas pessoas. O que o levou a quase vencer uma eleição.

Mas Noah não era apenas um rival para Isaac, era uma ameaça em potencial para destruir o novo mundo que este estava construindo. O presidente viu que precisava tomar medidas drásticas para retirar o inimigo do seu caminho. Meus pais me disseram que armaram para Noah. Fotos comprometedoras caíram na mídia, nas quais ele dormia e fazia sexo com outro homem. Sob as leis de Isaac Harper, Noah foi preso em HOPE sem direito algum de recorrer à decisão do Estado. Embora para alguns fosse nítida a armação, nada foi provado a favor de Noah, e seu fim foi a prisão.

Parecia impossível alguém tirar o poder de Harper e de alguma forma modificar a situação. Qualquer um que tentasse sabia qual seria o resultado se fosse contra as novas leis do país criadas pelo próprio presidente. E Isaac Harper não estava sozinho. A grande maioria, quiçá toda população, concordava com o slogan usado pelo governo: “Em prol da família tradicional” que grande parte dos partidos havia abraçado. Ninguém se atrevia a fazer diferente. Ninguém estava preocupado em defender uma minoria que se extinguia pouco a pouco com o regime ditatorial de Harper.

Mas meus pais eram diferentes. E quando eu os questionei sobre seu relacionamento, eles me disseram com toda serenidade:

  • Somos imunes à vacina da “cura gay”.

E descobri que eu não só era homossexual como também era imune quando completei treze anos ao perceber que sentia algo mais profundo por um garoto da minha sala de aula. Assim que contei aos meus pais sobre este sentimento, eles decidiram me tirar da escola e me afastar das amizades. No início senti muita raiva e a resposta era sempre a mesma quando eu dizia que queria ver meus amigos e voltar para a escola:

  • Sam, nós não podemos correr este risco.

  • Eu não vou tentar beijar ninguém – eu replicava, furiosamente. – Eu vou me controlar.

  • Você não sabe como são os hormônios, meu filho – redarguiam eles, sem rodeios. – Um erro que você cometer será seu fim e o nosso.

Não houve negociação. Meus pais foram irredutíveis e após ter minha casa invadida por agentes do governo eu finalmente entendi a gravidade da situação.

Desde pequeno eu sustentei a mentira que eles me pediram para jamais revelar: para todos, eles não tinham vínculo algum um com o outro. Meu pai Hans era meu verdadeiro pai e meu pai Tedd um morador qualquer que vivia no apartamento no andar debaixo que só conhecíamos de vista. Nunca saíamos juntos e nunca chegávamos juntos.

Eu era órfão de mãe. Meus pais me disseram que sou fruto de uma gestação de barriga de aluguel, então nunca cheguei a conhecer minha verdadeira mãe. Mas para mim a melhor amiga do meu pai Hans, Grace, era como se fosse minha mãe. Quando eles saíam para viajar a trabalho, eu ficava com Grace. Ela era uma mulher incrível e eu a amava. Não tinha filhos, mas me tratava como um. Por vezes, meus pais ficavam quase um mês fora e quem cuidava de mim era Grace. Ela tinha uma galeria de arte que foi onde meus pais se conheceram e passaram a ter um relacionamento às escondidas.

Eu nunca pude ter um dia normal em família, em que meus pais saíssem comigo para um passeio num shopping ou pelos parques. Nossos únicos momentos juntos eram quando íamos acampar nas montanhas no Colorado na primavera. Mas mesmo assim, eles nunca se sentiam à vontade. Ambos não davam chance para o azar. Sabiam que se fossemos descobertos o governo iria nos caçar até que estivéssemos ou presos ou mortos.

No dia em que completei dezesseis anos, meus pais me chamaram para uma conversa muito séria. A mais séria que já tivemos. Recordei-me de que me aconcheguei no sofá e eles se sentaram diante de mim para dizer que algo ruim poderia lhes acontecer a qualquer momento. Naquele instante eu imaginei que eles haviam sido descobertos. Meu coração acelerou e senti medo. Eles continuaram dizendo que não sabiam se viveriam por muito tempo e que precisavam me preparar para o pior. Meu medo aumentou ainda mais.

E se caso alguma tragédia ocorresse, ensinaram-me passo-a-passo para um plano de fuga caso fossemos atacados em nossa própria casa ou em qualquer outro lugar. Antes de algo ruim nos ocorrer, meu pai Hans me ensinou a dirigir e ambos deixaram um carro reserva na garagem do prédio que eu só poderia usar em caso de fuga. Dentro do porta-luvas estaria o endereço para onde eu deveria ir e lá estaria alguém que me protegeria.

  • Quem estará me esperando? – questionei, com a cabeça ainda cheia de informações e medo.

Eles se entreolharam e meu pai Hans disse:

  • Meus pais.

Meus olhos permaneceram vidrados em meu pai Hans. Ele nunca havia me dito sobre meus avós até aquele dia.

  • Você nunca me disse que eles estavam vivos – retruquei.

  • Por uma questão de segurança, Sam – respondeu ele. – Tudo que ainda não relevamos para você é por uma questão de segurança. Mais algum dia você estará preparado, e então entenderá tudo que estamos fazendo para nossa família e por todos os homossexuais desse país.

  • Eu posso ficar com a Grace!

  • Não, Sam! – A voz de meu pai Hans soou mais alta e imperativa do que o normal. – Grace não pode lhe garantir segurança, meu filho. Prometa para nós que irá para a casa dos seus avós.

Hesito.

  • Sam! – Os olhos do meu pai exalavam uma ordem autoritária demais para que eu dissesse que não.

  • Prometo – disse, balançando a cabeça.

Meus pais sempre me mantiveram longe de muita coisa. Eu nunca soube ao certo o que faziam. Sempre estavam viajando a trabalho. Meu pai Tedd era o proprietário do apartamento debaixo, mas nunca entrei lá e tão pouco fui autorizado a entrar. Até aquele momento nunca soubera que tinha avós. Minha vida sempre fora uma fantasia até que eu me tornei adolescente e a puberdade veio, e com ela, desejos que me fizeram ser diferente de todos os demais e consequentemente uma ameaça. Ser homossexual não era bom. Isso eu soube desde que era pequeno. Mas quando comecei a ter uma compreensão maior do mundo e meus pais começaram a me contar a verdade sobre o que nosso país enfrentava, eu descobri que ser homossexual era pior do que imaginava, ser homossexual era correr o risco todos os dias ou de ser preso ou até mesmo morto. E por isso meus pais, com toda calma e paciência, disseram-me:

  • Filho, se algo acontecer conosco, faço tudo o que pedimos. E mais: seja forte. Muito forte. E lute para que este país seja um lugar melhor para você e para todos os homossexuais. Prometa-nos que irá lutar por um país melhor?

  • Eu não quero que vocês morram! – balbuciei, enquanto meus olhos se marejaram de lágrimas.

  • Apenas prometa, Sam – pediu meu pai Hans mais uma vez.

  • Eu prometo – murmurei, relutante.

Eles me abraçaram e disseram que me amavam. Um dia depois da promessa feita aos meus pais, os agentes arrombaram a porta do nosso apartamento e eu me encontrava dentro daquele cubículo claustrofóbico aguardando a hora certa de sair de lá.

Não sei quanto tempo se passou dentro daquele lugar escuro. Mas decidi que era hora de seguir em frente. Eu havia feito uma promessa para meus pais e tinha que cumprir.

Apertei o botão e abri a porta. Levei algum tempo para que meus olhos se acostumassem com a luz. Fazendo o mínimo de barulho, saí de dentro do armário. Olhei ao redor do quarto dos meus pais e senti raiva do desprezo deles para com as coisas de meus pais. Caminhei em direção à sala, dando um passo de cada vez pelo corredor. Visualizei um braço estirado sobre o chão que se despontava por detrás da parede. Engoli em seco. Ainda não sabia de quem era. Quando cheguei à sala, senti meu corpo enrijecer-se ao ver meus pais ensanguentados e brutalmente assassinados sobre o tapete. Entrei em estado de choque. Não conseguia sair do lugar. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem parar.

Naquele instante um filme passou pela minha cabeça. A primeira lembrança que eu tinha dos meus pais quando eu fiz cinco anos e meu pai Hans escorregou num trenó comigo na neve. Minha ligação era maior com ele, porque ficávamos mais juntos, mas eu sempre amei ambos. Meu pai Hans, quando não estava viajando a trabalho, passava o dia comigo ou jogando videogame ou me levando para passear nos parques, na galeria de Grace ou fazendo qualquer outra coisa comigo. A maior parte das coisas que aprendi em minha juventude foi meu pai Hans quem me ensinou. E naquele momento eu sabia que este ciclo havia se rompido. Meus pais estavam mortos.

Consegui dar alguns passos, ainda que hesitante, até eles, forçando-me a acreditar que o que estava vendo era apenas uma ilusão. Ajoelhei-me diante do corpo de meu pai e ao tocar no sangue ainda quente em seu peito, senti uma onda de desespero me dominar por completo. Meu pai Tedd ainda tinha os olhos entreabertos olhando em minha direção, mas não existia mais vida naquele olhar. Chorei copiosamente. Minha vontade era de berrar, mas eu não podia. Os homens do governo ainda podiam estar no prédio. E eu havia feito uma promessa para meus pais de conseguir chegar à casa dos meus avós. Eu tinha que cumprir.

Recompus-me. Enxuguei as lágrimas e senti raiva daqueles homens. Nunca havia sentido tanto ódio em minha vida como naquele momento.

Levantei-me e fui ao meu quarto, peguei uma mochila, onde havia algumas coisas indispensáveis, e ao passar pela porta arrombada da sala olhei para trás pela última vez e senti as lágrimas aflorarem em meus olhos novamente. A imagem de meus pais mortos nunca mais sairia da minha cabeça e eu a usaria para jamais me esquecer de quem fez aquilo e algum dia me vingar. Aquela era a última vez que eu os veria. Meu coração estava dilacerado, mas eu tinha que seguir em frente senão a morte de ambos teria sido em vão.

Saí no corredor do prédio. Meu pai Hans me pediu para que ninguém me visse sair, então eu não podia pegar o elevador, que eram vigiados o tempo todo por câmeras. Tomei as escadas da saída de incêndio e desci os vinte andares. Morávamos na cobertura e achei que as escadarias não teriam fim. Quando cheguei ao térreo, abri sutilmente a porta para investigar o ambiente. Além da vigilância do prédio, havia ao menos quatro homens do governo, mas não eram nenhum dos dois, cujos rostos gravei em minha memória. Desci até a garagem no subsolo. Sabia que lá havia câmeras de segurança, então caminhei sorrateiramente por entre os veículos até o carro que meus pais deixaram para mim. Peguei a chave na mochila e apertei o botão do alarme para abrir o carro. Escorreguei para dentro do mesmo como um réptil. Antes que eu pudesse abrir o porta-luvas para saber o endereço do meu avô, ouvi um barulho e olhei no retrovisor. Eram dois homens vestidos de preto. Meu coração disparou. Liguei o carro e arranquei com tudo em direção ao portão. Apertei o botão no controle para abri-lo e pisei fundo no acelerador. Olhei no retrovisor. Os agentes estavam correndo atrás do meu veículo e um deles saltou sobre a traseira do carro e se agarrou. Virei o volante com tudo para jogá-lo para fora, mas ele não caiu. Subi a rampa da garagem em grande velocidade e o carro saltou. O agente não conseguiu se segurar e caiu. Arranquei em grande velocidade pela rua. Olhei pelo retrovisor. O outro agente tinha uma arma apontada para meu carro, mas não atirou. Segui pela rua da minha casa e comecei a pegar um caminho qualquer até me sentir protegido o suficiente para parar e pegar o endereço que meus pais me deixaram. Dirigi por mais uns quarteirões e por fim encostei o carro. Abri o porta-luvas e peguei um papel que se encontrava dentro, no qual a letra do meu pai Hans dizia:


QUERIDO FILHO,

VÁ PARA ESTE ENDEREÇO.

25180 CLARKSBURG RD, CLARKSBURG, MD

Seus avós Jacob e Chloe estarão esperando por você. Seja forte! Com amor, Hans e Tedd.


Permiti que lágrimas escorressem pelo meu rosto novamente e apertei o papel contra o peito. Levantei a cabeça e olhei para frente. Eu tinha que seguir em frente pelos meus pais. Liguei o GPS e hesitei. Eu poderia desobedecer meus pais e ir para a casa de Grace, onde me sentiria protegido e em casa. Mas eu havia feito uma promessa e não poderia quebrá-la. Digitei rapidamente o endereço. Logo que as coordenadas apareceram, pisei no acelerador e segui as direções.

Nunca havia me sentido tão tenso para dirigir quanto naquele dia, nem mesmo no primeiro dia em que meu pai Hans me ensinara. Parecia que todos os carros que passavam ao meu lado eram suspeitos. Permaneci o tempo todo olhando para os espelhos para averiguar se não estava sendo perseguido. Quando a tensão passava, as lembranças e o medo voltavam e eu chorava.

Após dirigir por quase uma hora, finalmente o GPS me indicou que faltavam alguns minutos para chegar no meu destino final. Entrei numa estrada estreita e segui até encontrar um portão de metal. Avistei uma casa branca com detalhes em cinza, de aspecto antigo ao longo. Desci do carro e encontrei o portão de metal destrancado. Apenas o empurrei para abri-lo. Avancei para dentro do terreno com o carro e parei algumas dezenas de metro da casa. Sai do veículo e dei alguns passos para frente. Ouvi um latido e, logo em seguida, um pastor alemão apareceu na varanda da casa e correu em minha direção, pronto para me atacar, fiquei petrificado.

  • Astor! — Uma voz grave reverberou de algum lugar e o cão parou alguns metros diante de mim, ainda rosnando.

Olhei ao redor e vi um homem de cabelos e barba grisalhos, fisicamente forte, atravessando uns arbustos à minha esquerda. Carregava um machado nas mãos. Fiquei observando-o enquanto ele e o cão olhavam para mim com atenção. O homem aproximou-se.

  • Sam? — disse o homem. Enruguei o rosto e balancei a cabeça. Ele me conhecia?

  • Meus pais me disseram para vir para cá — afirmei. — O senhor é o senhor Jacob?

  • Sim — respondeu ele, laconicamente. — Onde estão seus pais?

Senti minha garganta travar naquele momento. As imagens de meus pais ensanguentados sobre o tapete da sala me fizeram começar a chorar, mesmo eu tentando me conter.

  • Mortos — murmurei, com os olhos marejados de lágrimas.

Não sei que expressão ele fez logo que lhe contei a verdade, pois abaixei minha cabeça e senti minhas lágrimas rolarem pelo rosto abaixo. A mão dele apoiou-se sobre meu ombro.

  • Vamos entrar, Sam — disse, mostrando um sorriso contido.

  • Você é mesmo meu avô? — perguntei, receoso.

Ele moveu os músculos da face para sorrir sutilmente.

  • Sim, Sam – anuiu ele. – Venha conhecer sua avó.

Enquanto meu avô me conduzia para dentro de sua casa, meu coração acelerava. Eu acabara de perder meus pais e conhecia meus avós pela primeira vez no mesmo dia.

Assim que entramos, reparei o quão antiga a casa era. Assoalhos, paredes, tetos e móveis, praticamente tudo feito de madeira que exalava um cheiro forte que impregnava meu nariz. Meu avô me conduziu até a cozinha, e quando entramos uma mulher de cabelos calvos, de aproximadamente uns cinquenta anos ou mais, corpo esguio, cozinhava alguma coisa. Ela ouviu nossos passos e se virou para nós. Tinha o rosto levemente amarfanhado pelo tempo e era excentricamente bonita. Reparei que meu pai se parecia mais com ela, principalmente pelos olhos azuis.

  • Querido, eu pre...

Ela interrompeu a fala no mesmo instante que se deparou comigo. Fez uma careta, fitando logo em seguida meu avô.

  • Oh, meu Deus! — exclamou ela, levando a mão à boca.

  • Este é o Sam, querida — disse ele.

  • Eu sei. Onde está seu pai?

Não consegui responder. Meu avô fez isso por mim.

  • Os dois... mortos... – murmurou.

Ela enrugou o rosto e meneou a cabeça, consternada. Vi lágrimas minarem em seus olhos e, assim como eu, ela também começou a chorar.

  • Eu sabia que isso iria acontecer... eu sabia — disse ela, com a voz embargada pelo choro.

  • Chloe, agora não podemos fazer mais nada.

Ela balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com o avental e veio em direção a mim, curvando-se para ficar mais próxima.

  • Você está com fome?

Meneei a cabeça.

  • Gostaria de tomar um banho e descansar um pouco?

Apenas balancei a cabeça, languidamente.

Ela, com todo o carinho, conduziu-me até o banheiro, emprestou-me toalhas novas e me deu duas peças de roupa: uma camiseta, uma cueca e uma bermuda.

  • Que bom que não me desfiz das roupas de seu pai de quando ele tinha a sua idade — disse, passando a mão em minha cabeça.

Peguei as roupas de suas mãos. Ela não conseguia olhar para mim diretamente. Continha-se para não chorar em minha presença. Perdi um pai e ela um filho. Nossas dores eram muito semelhantes.

Tomei um banho de quase meia hora. Fiquei a maior parte do tempo tentando afastar minha mente das cenas de meus pais mortos do que preocupado em me limpar. Tive crise de choro todas as vezes que me questionava o que seria de mim daquele momento em diante. Tragédias como aquelas nos forçam a amadurecer mesmo que não queiramos.

Eu iria viver com meus avós que acabara de conhecer? E minha casa? Minha vida? Eu era jovem demais para conseguir entender a gravidade da situação, e que inevitavelmente minha vida seria obrigada a seguir outros caminhos. Eu tinha algumas perguntas a fazer aos meus avós para tentar entender melhor o que estava acontecendo e ainda assim havia coisas que eu não compreenderia, talvez, pela minha imaturidade.

Horas antes, meus pais e eu conversávamos na sala, e pouco tempo depois eles estavam mortos, e no final do dia eu me banhava num lugar desconhecido, com pessoas que nunca havia visto antes, mas que eram meus avós. O que mais queria naquele momento era fechar os olhos e voltar para minha casa com meus pais, mas sabia que isso não iria acontecer... nunca mais. A única escolha que tinha era aceitar minha condição de órfão e me adaptar e viver com meus avós.

Olhei pela janela do quarto e o sol já havia se posto. Vesti-me e desci. Minha avó já havia colocado a mesa para que pudéssemos jantar. Não havia como não me sentir um estranho naquele lugar. Era tudo muito recente e eu não sabia como me portar.

  • Sente-se aqui, querido — disse minha avó, puxando uma cadeira para trás. Sua voz estava embargada e seus olhos denunciavam o quanto havia chorado.

Acomodei-me na cadeira, ainda que um pouco relutante, e não consegui olhar para ambos.

  • Você come legumes, Sam? — perguntou ela, com uma voz doce.

  • Uhum.

  • Seu pai sempre gostou de legumes e verduras.

Balancei a cabeça.

  • Ele deveria ser um ótimo pai.

  • Os dois eram. – Olhei para ela.

  • Sim, claro – concordou ela, consideravelmente desconfortável. – Os dois.

Ela forçou um sorriso e colocou comida no meu prato. Senti vontade de chorar de novo. Eu não queria estar naquele lugar, comendo aquela comida, com aquelas pessoas, que, embora estivessem me tratando com toda amabilidade, eram, acima de tudo, estranhas, e por mais que eu aceitasse a ideia de que eram meus avós, todavia não era suficiente para cobrir o buraco que a morte de meus pais abrira em meu coração.

Eu estava quase o dia todo sem comer. Meu avô estava devorando toda a comida enquanto minha avó fazia uma oração antes de comer. Ela não me cobrou que eu fizesse o mesmo. Logo que terminou, sorriu para mim e começou a comer. O cheiro do cozido com legumes penetrava minhas narinas e por menor que fosse minha vontade de comer, minha fome falava mais alto. Experimentei a primeira garfada e adorei o sabor. Devorei um prato inteiro em minutos e ela me serviu com mais um pouco. Senti necessidade de conversar e saber mais do que estava acontecendo. Eu precisava de respostas, das quais talvez ambos estivessem me poupando devido ao meu momento de fragilidade, mas eu precisava saber mais sobre eles e porque meus pais me esconderam sobre meus avós.

  • Por que meus pais nunca me contaram sobre vocês? — perguntei, olhando para meu avô, sentado à ponta da mesa.

Ele respirou fundo, colocando os talheres sobre o prato.

  • Por que não jantamos primeiro e depois eu lhe conto tudo?

Balancei a cabeça e continuei a comer.

Logo que todos acabaram de se alimentar, minha avó retirou as coisas da mesa e meu avô me chamou para uma conversa no sofá. Aconcheguei-me em um deles, enquanto ele se acomodou numa poltrona confortável. Esfregou os olhos com uma das mãos e respirou fundo, antes de olhar para mim.

  • Você sabe a causa pela qual seus pais morreram? – questionou.

  • Creio que sim – respondi, balançando a cabeça. – Meus pais eram imunes à vacina da “cura gay”. Assim como eu.

  • Sim – suspirou. – Não sei o erro que eles cometeram que colocou suas vidas em risco.

  • Eu também não sei – respondi. – Mas porque eles não me contaram sobre vocês?

  • Porque...

Meu avô iria falar alguma coisa quando os latidos do Astor o interromperam de súbito. Ele assumiu uma posição de alerta que somente os soldados treinados sabiam como fazer. Elevou o dedo indicador ao nariz, pedindo para que minha avó e eu fizéssemos silêncio.

Astor não parava de latir, até que deu um grito estridente e tudo ficou silencioso. Minha vó veio à minha direção e me abraçou, tentando me proteger. Meu avô deslizou como um ninja para a cozinha e pegou uma faca grande e afiada. Agarrou três panos de prato rapidamente e os molhou na pia. Voltou ao nosso encontro e jogou dois deles para nós.

  • Entrem no depósito e coloquem isso no rosto se eles arremessarem uma bomba de fumaça — sussurrou.

Não entendi o que ele quis dizer com “fumaça”, mas nem foi preciso que explicasse. Ouvimos o barulho do vidro estilhaçando e algo cair quase sobre nossos pés.

  • Cubram o rosto e se escondam! — disse meu avô, nervoso.

A bomba explodiu e uma nuvem de gás tóxico preencheu rapidamente o ambiente. Minha avó me puxou para dentro de um depósito através de uma porta debaixo da escada. Comecei a ficar sem ar e a fumaça ardia meus olhos a um nível insuportável. Ouvi o barulho da porta sendo arrombada e sons de socos e um grito de homem ecoar pela casa. A fumaça se dissipou um pouco e pela fresta da porta do depósito, consegui ver meu avô lutando. Antes de chegar àquela casa, eu nunca imaginara que tivesse um avô, menos ainda que ele fosse um exímio lutador. Naquele instante, fez todo sentido para mim de com quem meu pai aprendera a lutar. Uma vez ele me disse que aprendera quando era mais jovem, mas nunca me disse onde e nem com quem. Ao ver meu avô segurar o braço de um homem vestido de preto, usando uma máscara anti-gás, e quebrá-lo no meio. O homem deu um berro de dor. Meu avô pisou em seu joelho e vi sua perna dobrar para o lado contrário. Ouvi o barulho de osso se partir. Fechei meus olhos, imaginando a dor insuportável que o homem sentira. Voltei a abri-los. Eu queria ver o que meu avô iria fazer em seguida. Ele pegou a arma do homem e o fuzilou à queima-roupa. Virou-se para nosso lado e mirou a arma para cima e atirou. Assustei-me ao ver um vulto negro cair diante à porta, chocando-se bruscamente contra o chão. Uma saraivada de tiros fez com que minha avó e eu tapássemos os ouvidos, mas não fechei meus olhos e tampouco os tirei da imagem do meu avô pulando para trás de um buffet como um felino para se proteger dos tiros. Alguém estava atirando nele de cima da escada. Não sei como eles conseguiram entrar pelo andar de cima.

Ouvi passos descendo a escada, e logo em seguida um homem passou diante da porta do depósito e seguiu em direção ao meu avô. Logo atrás dele, outro homem segurando sua arma estava pronto para matar. Eu sabia que meu avô estava atrás do balcão e aquele homem estava indo ao seu encontro. Esqueci-me por um segundo de que meu avô saberia perfeitamente como sair daquela situação e que eu deveria me calar. Incontrolavelmente ameacei um grito. Minha avó tapou minha boca naquele instante. O outro agente virou-se para nosso lado e começou a vir à nossa direção. Aproximou-se cada vez mais e senti as pernas de minha avó estremecerem. Ela me apertou forte contra o corpo enquanto tapava minha boca. Se meu avô não os matasse, aquele seria o nosso fim. Mas eu não senti medo daquele homem, senti raiva.

Ouvi o som de um gemido e um estrondo logo em seguida. O homem se virou em direção ao meu avô, mas não teve tempo de fazer nada. Vi seu corpo tombar como uma tora em direção ao chão e o reflexo de uma faca cravada em sua cabeça. Meu avô ainda se mantinha na posição de quando arremessara o objeto. Ele veio até nós e removeu o corpo do agente da frente da porta e a abriu. Minha avó estava em pânico, mas eu novamente não estava com medo.

  • Vocês estão bem? — perguntou meu avô.

  • Sim — disse.

  • Não — respondeu minha avó, em pânico.

  • Querida, arrume nossas coisas, vamos ter que sair daqui agora.

  • Mas essa é a nossa casa.

  • Eles estão atrás do Sam e não descansarão até encontrá-lo.

Ela olhou para mim e depois para meu avô e balançou a cabeça. Subiu as escadas às pressas e desapareceu da minha visão.

  • Como sabe fazer tudo isso? — perguntei.

  • Eu trabalhava para o governo desde a era do presidente Harrison — disse ele. — Mas quando Isaac Harper assumiu o cargo e iniciou sua guerra contra os homossexuais, não pude compactuar com isso, sabendo que meu filho era homossexual e mais ainda sabendo que ele não havia sofrido reação à vacina. Abandonei meu cargo, fingindo problemas de saúde. Mas agora que sabem que Hans era meu filho e que era de fato homossexual, com certeza não querem apenas você morto, mas a mim também por traição à pátria. Para segurança de todos vocês, seu pai se afastou de nós e não mais o vimos por anos. Tudo que recebemos foram apenas cartas e fotos de vocês. Antes de ontem foi a última e a primeira vez depois de anos que vi seu pai. Ele veio me pedir para que cuidasse de você caso algo acontecesse com eles e que você chegaria até nós sozinho. Tentei saber o que havia acontecido, mas ele não me disse nada. Imagino que alguém deva ter descoberto e os denunciado, o que os levou a ter o fim que tiveram.

  • Como eles descobriram que estávamos aqui? – perguntei.

  • Eles devem ter rastreado seu veículo.

  • Mas esta foi a primeira vez que este carro saiu da garagem. Não tem como alguém ter colocado nada nele... – E então algo me ocorreu. – Um agente saltou sobre meu carro enquanto eu saia da garagem. Será que ele poderia ter colocado alguma rastreador?

  • É muito provável – afirmou ele. – Agora vamos ajudar sua avó.

Senti um nó na garganta ao ver a tristeza de minha avó ao deixar sua casa. Eles tinham seus animais, a horta, o jardim, seus pertences, tudo teria que ser deixado para trás. Meu avô ficou com o semblante mais triste quando viu Astor morto a alguns metros da casa. Mas dentre os dois, quem mais ficou triste fui eu. Mal os havia conhecido e já estava lhes causando problemas, fazendo-os mudar de vida por minha causa. Além da falta de meus pais, teria também que conviver com o peso da culpa por forçarem meus avós a deixarem sua vida para me salvar.

Eles juntaram o que puderam e jogaram no carro às pressas. Alguns minutos mais tarde, estávamos partindo para algum lugar.

  • Aonde vamos? — perguntei.

  • Para um lugar seguro.

Após praticamente uma hora de viagem por uma rodovia interestadual, entramos em uma estrada de terra que parecia dar a lugar nenhum. Meu avô dirigiu por mais alguns minutos e então avistei alguns focos de luzes fracas acesas no breu da noite. Chegamos em uma região de Poolesville, em Maryland, afastada o seguramente da capital. Um homem negro de meia-idade, cabelos e barbas grisalhos, um pouco obeso, abriu a porta da casa e ficou na varanda tentando reconhecer os visitantes. Meu avô saiu do carro e o homem o reconheceu naquele instante.

  • Jacob! — disse ele, vindo de encontro ao meu avô, com os braços abertos para abraçá-lo.

  • Sebastian, meu amigo!

Senti que eram grandes amigos com o abraço forte que se deram. Minha avó saiu do carro e eu a segui, mantendo-me mais afastado.

  • Chloe, há quanto tempo! — saudou Sebastian, abraçando-a.

  • Digo o mesmo, Sebastian.

Ele olhou para mim e enrugou a testa.

  • E quem é este? — perguntou.

  • Este é o Sam. Filho do Hans – respondeu meu avô.

Sebastian arregalou os olhos, espantado.

  • Não imaginava que o Hans tivesse tido filho. Tudo bem com você?

Balancei a cabeça languidamente.

  • E onde está seu pai?

Desviei o olhar e creio que ele percebeu o meu desconforto. Meu avô interveio:

  • A história é longa, Sebastian.

Houve uma pausa embaraçosa por alguns segundos e então Sebastian suspirou:

  • Bom, vamos entrar.

Entramos em sua casa e me pareceu que morava sozinho. O lugar não estava muito organizado. Uma lareira grande mantinha a sala da entrada aquecida e aconchegante. Sebastian juntou algumas peças de roupa espalhadas sobre um sofá antigo e feio enquanto entrávamos. Educadamente pediu para que nos sentássemos no sofá, enquanto recolhia o lixo e o jogava num saco plástico preto.

  • Gostariam de algo para beber?

  • Não, obrigado — dissemos.

Meu avô foi direto ao ponto.

  • Sebastian, precisamos de uma grande ajuda sua.

  • Claro, diga.

  • Podemos ficar aqui por um tempo?

Ele fez uma careta, desentendido.

  • É... claro que sim. Claro que sim... Mas... por quê?

  • Nossa casa não é mais segura.

  • Não entendo.

  • Mataram meu filho.

Sebastian suspirou.

  • O que aconteceu?

  • Eu nunca lhe disse, mas Hans era gay.

  • Oh! — Ele levou uma das mãos à boca.

  • E também imune à vacina da “cura gay”.

  • Imune? Como pode isso? — A expressão de Sebastian era de pura indignação.

  • Não me pergunte. O caso é que mataram meu filho e o marido dele, mas Sam conseguiu fugir. O governo deve saber que ele tem os genes do pai e como conheço o governo de Isaac Harper, ele não quer arriscar ter alguém que possa atrapalhar seus objetivos de qualquer forma — Meu avô fez uma parada e continuou: — Fomos atacados esta noite por agentes. Eu consegui detê-los, mas precisamos de algum lugar seguro para ficarmos por um tempo. Talvez um longo tempo.

  • Claro! Podem ficar aqui o tempo que for necessário.

  • Obrigado — agradeceu meu avô, demonstrando grandiosa gratidão.

  • Por que não pegam seus pertences no carro e se acomodem nos quartos?

Havia três quartos na casa e me acomodei no menor dentre eles, que estava longe de ser como o meu no apartamento que tinha na cidade, mas eu não estava em condições de exigir nada. Naquele momento o único que importava era ter um lugar para viver e longe dos agentes do governo.

Já era tarde da noite e logo que Sebastian se retirou para seus aposentos, fui para meu quarto em silêncio. Sentei na beirada da cama e senti o colchão duro e desconfortável. Olhei ao redor e percebi que não havia nada de interessante, somente uma cômoda antiga e cheiro de madeira velha e mofo. Respirei fundo. Sabia que assim seria por um longo tempo.

Antes de dormir, meu avô veio ao meu quarto conversar comigo e dizer que estava tudo bem e que nada daquilo que estava acontecendo era culpa minha. Concordei meio contra vontade.

Demorei a pegar no sono logo que ele saiu. Fiquei revivendo os fatos e o que me veio à mente foi raiva. Por que meus pais, eu e outros milhares de homossexuais estávamos sofrendo a ira de um governo ditatorial e sem escrúpulos? Não era justo! Estava muito difícil para eu me acostumar com aquele quarto pobre e solitário, na presença de pessoas que ainda eram estranhas para mim e não junto de meus pais. A dor da saudade era doída e difícil de superar.

E após chorar por horas a fio no meio daquela noite, deixei minha mente se preencher com sentimento de justiça. Foi naquela noite que decidi que eu iria fazer alguma coisa para ajudar os homossexuais. Meu sangue poderia ser o antídoto para a “cura gay”, então eu iria de alguma forma encontrar o cientista e fazer com que ele fabricasse o antídoto. Meus pais pediram para que eu nunca desistisse de lutar, então eu tinha que agir de alguma forma. Eu iria me tornar muito forte. Meus pais não iriam querer me ver choramingando o tempo todo. Eles não me criaram para ser fraco. Lembrei-me do quanto meu pai Hans tinha o pulso firme. Quando eu caia, ele logo dizia:

  • Levante-se sozinho! Eu não vou ajudá-lo.

Eu tinha que me tornar forte e lutar contra Isaac Harper. Meu pai Hans me ensinou desde pequeno a lutar e creio que me preparava para algo assim. Eu apenas precisava ficar mais forte e era isso que eu iria fazer.

Acordei no dia seguinte e desci para a sala, onde encontrei todos sentados me esperando para tomarem o café da manhã. Vovó já havia arrumado toda a casa. Era notório seu novo aspecto de limpeza.

  • Bom dia! — disseram.

  • Bom dia — respondi, sem muita vontade.

  • Dormiu bem? — perguntou meu avô.

  • Demorei um pouco para dormir.

  • Ficou com receio dos agentes aparecerem?

  • Não, fiquei apenas pensando. Acho que já tenho a solução para o que está acontecendo.

Eles fizeram caretas como se estivessem buscando entender.

  • Como assim?

  • Se eu sou imune, então meu sangue pode ser o antídoto para a “cura gay”, certo? Então temos que encontrar o cientista e forçá-lo a fazer o antídoto.

Meu avô ameaçou um riso.

  • Eu entendo seu pensamento, Sam, mas acha que é tão simples assim?

  • Sei que não, mas o senhor foi um agente e pode tentar encontrar o cientista e forçá-lo a criar um antídoto.


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